July 30, 2012
A rotina de um solitário

Seus pensamentos eram movidos pela paranóia consequente de sua fobia social e tentava em vão se livrar dessas idéias através de uma atividade enfadonha e patética como a navegação por sites de pornografia. Na verdade não chegava a ser um momento onde sua libido ganhava o rumo que sempre culminava no pequeno ode à atividade onanista, era apenas a força do hábito se mostrando superior a iniciativas que eram necessárias considerando sua medíocre rotina. Entre uma película erótica e outra, intercalava com uma passagem rápida pelo 9gag ou uma zapeada pelos canais abertos da televisão. Mas os pensamentos fixados na sua dificuldade em se relacionar com as pessoas e suportar as conversas exigidas de acordo com as regras da socialização tiravam a graça da final de campeonato transmitida na televisão ou da mais recente aquisição literária. Cogitou beber, mas havia abandonado o hábito e exatamente ali que se encontrava a maior dificuldade, visto que a bebida era o que sustentava seu suposto interesse nos comentários e lamentos alheios. A sobriedade lhe custou as amizades e relacionamentos obtidos graças as generosas doses de uísque e vodka e então o tédio se instalou. O interesse pelo sexo se manteve, afinal, estava numa idade em que seu corpo exigia isso e tal necessidade já não era mais suprida por uma punheta de 5 minutos debaixo do chuveiro; no entanto as desculpas para fugir dos relacionamentos com as mulheres e garotas que conhecia se multiplicavam como coelhos. Acabou passando por egoísta, canalha e outros adjetivos ruins que não condiziam com sua personalidade, mas que eram reflexo das inúmeras decepções amorosas e de um cansaço em relação a vida. Então passou a se contentar com a rotina solitária, se acomodando e evitando ao máximo qualquer tipo de contato humano mais profundo, inclusive em relação às suas amizades. Até porque os amigos já não tinham mais paciência para suas inconstâncias. Não entendiam o isolamento e sequer questionavam. Era apenas mais um cara que ia ficar de fora no jogo de futebol no meio da semana, um convite a menos para a rodada de cerveja no boteco na quinta à noite. Mas não havia como culpar os camaradas pelo descaso, já que foi ele quem buscou o retiro forçado, através das atitudes que consistiam no hipotético fato de que o mundo girava em torno da sua pessoa. Quando refletia sobre o propósito de sua existência, novamente acabava sendo interrompido pelas perseguições que criava em sua mente. Algumas de fato tinham fundamento, mas dava a elas proporções muito maiores. A martirização se tornou frequente. Levando em conta todas essas dificuldades, buscou uma última alternativa:

Enviou uma carta para a produção do Domingão do Faustão se oferecendo para divulgar seu único talento: imitar o som de mais de 300 espécies de passarinhos.

  1. pachuquismosdesegunda posted this